Na semana passada tive que levar Isabel ao hospital. Nada muito sério, apenas a reincidência de uma infecção de pele que nos perturba desde o começo do ano. Enquanto esperava a médica passar, eu observava o vai e vem de enfermeiras, técnicos e pacientes – pequenos pacientes com perninhas enfaixadas, lábios arroxeados e pele descorada, quase todos acompanhados pela mãe. Fiquei pensando no quanto o meu equilíbrio é totalmente dependente do bem-estar das minhas filhas. Se algo acontece a elas, eu me desfaço junto. Ter filhos é basicamente repartir a sua alma e entregar de bandeja ao mundo. É uma exposição muito característica da vida, mas uma exposição ainda mais violenta, porque se o alvo do sacrifício for opcional, você sempre vai escolher se entregar primeiro.
Tenho pensado muito na exposição. Além do doce e violento amor da maternidade, tem as inseguranças profissionais sobre as quais andei desabafando por aqui e o lançamento do meu novo romance, A linguagem dos desastres. É um fato inegável que escrever e publicar um livro também carrega consigo uma dose generosa de vulnerabilidade. Você passa anos pacientemente costurando o seu bonequinho de Judas e então o pendura na árvore para ser apreciado ou espancado. O único pecado cometido foi trair a lógica do mundo e se dedicar a uma atividade puramente criativa. Me perdoem se o resultado não for bom o bastante. Eu tentei.
Durante uma das últimas consultorias literárias que fiz, uma escritora me perguntou se escrever seu livro não seria exposição demais, se não traria riscos. Eu disse: depende. Para além das particularidades do projeto dela, a grande questão é que escrever é sempre arriscado. Você arrisca decepcionar um monte de gente, inclusive a si mesmo. Você arrisca perder tempo (vai perder tempo), saúde mental e autoestima. Mas também ganha em troca doses generosas e enlouquecedoras de prazer. É estar, sim, em um lugar bastante vulnerável. Vale a pena? Continuo achando que sim. Tanto é que sou recorrente.
Publicar, no entanto, é ainda mais assustador do que escrever. Porque envolve uma porção de atividades com as quais eu não necessariamente me dou bem. Estou organizando os lançamentos presenciais do Linguagem, por exemplo, e decidi declinar de ter um bate-papo. Por que? Porque o próprio evento de lançamento já me deixa em estado febril. Veja bem, lançamento de livro e noite de autógrafos têm para mim a mesma carga dramática das festas de aniversário. Nunca fui muito fã de aniversários. Até me empolgo, no começo, faço planos e tudo mais, mas quando vai chegando perto bate o nervosismo e a insegurança. E se ninguém aparecer? E se todo mundo aparecer? Como vou entreter meus amigos de núcleos diferentes? Onde vou colocar a minha família? E a família do João? Enfim, coisas da cabeça de uma pessoa ansiosa, nada novo sob o sol. Com os eventos de lançamento de livro, rola a mesma coisa. Embora esteja muito empolgada – e espero que o lançamento deste ano reúna pelo menos algumas pessoas além do meu círculo mais próximo, que já foi intimado a comparecer –, tem sempre aquela vozinha que diz: ninguém vai aparecer. Ninguém está interessado.
Quando entro nesse vórtice, esqueço do verdadeiro motivo pelo qual sou escritora. Me dá vontade de fazer o Raduan e ir criar galinhas (c/c Tiago Germano). Eu desenvolvi um talento sobrenatural para disfarçar a minha timidez ao longo dos anos, mas é um fato consumado que ela ainda está aqui. Costurada sob a minha pele como um animal peçonhento. Estou mais confiante, o que ajuda a neutralizá-la. Afinal de contas, não comecei ontem. Isso me deixa grata e um pouco mais à vontade. Talvez, se eu continuar escrevendo sem pensar muito a respeito, chegue um dia em que eu faça lançamentos com a leveza de quem vai ao mercado.
Porque estou exposta e vulnerável, sim. Inclusive para as mais de oito mil pessoas que assinam esta newsletter. Eu fiz essa escolha, apesar do meu animal peçonhento. Decidi me arriscar confessando ao mundo que minha atividade preferida é inventar pessoas e agora estou enterrada até o pescoço nesta verdade exótica, com todas as inseguranças que ela arrasta. Assim como ter minhas filhas, não me arrependo nem por um segundo, porque a quantidade de paranoia é diretamente proporcional ao amor e ao orgulho. Um orgulho sobrenatural de estar vivendo.
Eu amo poder dizer que estou escrevendo uma história, sempre escrevendo uma história ou outra, e amo saber que algumas pessoas já estarão interessadas em ler. Mesmo que o meu relatório de vendas seja decepcionante em alguma medida, mesmo que eu não carregue os números inflacionados que este mercado precisa para que alguém seja realmente bem-sucedido e consiga pagar suas contas com leveza, ainda assim é este o meu lugar. Não tenho motivos para ter medo agora.
Apoie a artista
A linguagem dos desastres está em pré-venda e você já pode saber mais sobre o livro e comprar clicando aqui. Em Portugal, o livro sairá pela editora Presença, no selo Manuscrito – a previsão é que saia em maio, e eu atualizo vocês, queridos leitores portugueses, assim que souber de mais detalhes. Caso queira conhecer meus trabalhos já publicados primeiro, tem o Apague a luz se for chorar e o Como se fosse um monstro (os dois estão com desconto, aproveitem…)
Como a literatura ainda não é meu ganha-pão, ofereço serviços de leitura crítica de originais, consultoria literária e consultoria de newsletter. Os detalhes e valor de cada um podem ser conferidos aqui. Tenho vagas para este mês ainda! Basta mandar um e-mail: fabiane.c.guimaraes@gmail.com. Subi um pouco o valor da leitura crítica porque um escritor muito querido me avisou que eu estava cobrando até barato para o valor que entrego, mas tudo é negociável.
Caso você também queira se arriscar nessa vida de escrita, mas não sabe muito bem como começar ou ainda não tem nada escrito que justifique uma consultoria, eu tenho um curso bem legal sobre escrita (e publicação!). Conheça mais aqui.




o importante é fazer com medo mesmo, não deixar que ele paralise.
Eu já fiz lançamento pra 0 pessoas. Nesta plataforma quando muito escrevo pra 30. Já me perguntei muitas vezes se desistir é uma opção. Ainda não sei o porquê de não me responder que sim.